quando eu tinha uns dezesseis anos, fui passar um dia na casa de uma amiga, a Lelé, que vem aqui sempre e comenta. Depois do dia, ela comentou assim:

- Lu…minha mãe, quando você foi embora, disse: nossa, sua amiga Lulu vive dentro de um romance, né?

eu não sei ainda hoje se isso foi uma crítica ou um elogio, mas eu lembro que fiquei um pouco envaidecida à época. Pensei assim que era mesmo uma personagem de literatura, uma heroína de romance B, ou sei lá. Que vivia minha vida como se a escrevesse.

Nesses tempos de separada deparei-me com uma série de situações onde não sabia ao certo se o que haviam me dito era verdade ou mentira, se o que eu estava imaginando era da minha cabeça ou existia de verdade. Querem saber? Não importa.

Na literatura não importa se o que acontece lá tem correspondência no mundo real. Na literatura pode-se criar um personagem impossível, uma situação impossível, basta ter coerência interna, ser convincente dentro do universo criado na obra, e pronto.

Toda hora, quando leio com meus alunos, ouço uma espécie de crítica, às vezes até meio revoltada:

-mas isso não pode acontecer na vida! Na vida não existe um cavaleiro inexistente, na vida não existem cronópios nem famas, na vida não existe um fidalgo  que endoidou e lutou contra moinhos de vento.

Eu até gosto quando ouço isso, porque aí posso sorrir e dizer, como quem revela um grande segredo:

- sabe? por isso que a literatura é legal. Porque as regras da literatura são interiores a ela mesma. Se estiver bem escrito, se for coerente e compreensível para o leitor,  um escritor pode criar o mundo e as personagens que quiser. Pode falar de pessoas que vivem em Marte, pode falar de uma ida ao inferno, purgatório e paraíso, pode falar de um assassino bom, de um operário que estuda filosofia alemã.

O critério da verdade na literatura está dentro dela mesma, é isso que é verossimilhança, a literatura não precisa ser uma réplica do mundo tal como ele é, ela cria mundos e vidas, e por isso que a literatura é legal, por isso que ela pode ser subversiva, porque ela permite criações, permite-nos imaginar e viver o impossível, permite-nos a verdade de uma mentira bem contada e sincera, permite-nos imaginar e viver além das regras da vida desse mundo, e quando isso é possível, parece-me que ganhamos até uma liberdade e mesmo uma capacidade de sonho e mudança. Outras realidades. Belas e verdadeiras como somente a boa ficção pode ser.

Se eu vivo num romance é porque acredito na narrativa que crio para  a minha vida. Acredito na beleza da vida, na possibilidade de subversão das regras do mundo, na criação. Acredito nas verdades inventadas, e vou construindo minha história, poética, louca mas muito, muito verossímil. Contando, tem gente que nem acredita, e isso é o mais lindo ( e divertido) de tudo.  Uma vida bem vivida é também uma vida elaborada, narrada, recriada, repetida. Acho que talvez eu viva mesmo num romance, acho que isso pode me trazer complicações, desligamentos, um certo otimismo pessoal desmedido, um certo ar trágico desnecessário, uma vontade de sempre criar, um certo sentimento constante de desligamento e mesmo desconforto. Não importa. Que as cores da literatura entrem pela minha janela. Realmente, de fato, não vejo muita diferença, e além disso, acho que, na verdade, de literatura eu entendo mais do que de vida.
E eu gosto da idéia de viver como se fôra uma arte.

Gosto bastante.