Algumas histórias terminam quando começam outras. Algumas histórias terminam abruptamente, de repente, sem nenhum aviso. Para o outro já vinha terminando faz tempo mas um ali não percebeu. Há ainda aquelas histórias que terminam porque simplesmente tornam-se impossíveis, insustentáveis, insuportáveis. Outras terminam aos poucos, vão definhando e de repente são dois estranhos vivendo juntos. Outras ainda terminam sem que nem se perceba, outras terminam com muita conversa. Mas sempre é estranho, muito estranho, o término de uma história de amor. E sempre, de alguma maneira, é uma grande surpresa, e desencanto também.

Porque quando a gente está com alguém de verdade, por algum tempo, para o mal ou para o bem, a gente se mistura com a outra pessoa. A outra pessoa possibilita e sustenta a nossa existência, a gente fica querendo ser melhor por ela, ser inteiro por ela, ser. A gente quer ligar e contar nosso dia inteiro, os acontecimentos mínimos, vive uma coisa legal e quer partilhar, porque parece até às vezes que é através do outro em nós que a vida acontece. A gente cria um carinho enorme, sabe todos os traços do outro, conhece as cicatrizes e as vergonhazinhas do outro, conhece as manias, como o outro acorda, como faz quando fica bravo ou triste, e fica mal quando o outro está mal. A gente vive e ajuda quem ama, badala, cuida, e é cuidado. Faz juntos planos para o futuro, e fica feliz com tantas possibilidades de vida feliz. E se espanta diariamente com o milagre que é o encontro de duas pessoas apaixonadas. A gente se orgulha, de ter uma história assim. Alguns casais grudam mais, outros menos, mas de qualquer maneira uma parte de nós está ali, no outro, e é bom.

E então algumas histórias, algumas vezes, terminam. Ou vão diminuindo aos poucos. Abrem-se espaços para outras histórias, ou a gente fica simplesmente querendo viver a nossa história sozinho um pouco. Ou o outro já parece não guardar mais surpresas, ou o outro não desperta mais os desejos de outrora. Ou o outro se distancia e de repente já não é mais seu, sei lá. Ou parece que mudamos muito. Os andamentos tornam-se diferentes, os planos se desviam já não andam mais juntos e todo aquele futuro parece que deixa de fazer sentido. A gente sabe que de algum jeito a história terminou, mas o tempo de aceitação, de vivência do luto, quase nunca é o mesmo da separação em si.

Quando eu me separei, já conversava há meses com meu marido sobre nosso casamento. Lutei, lutamos muito para que nossa história continuasse. Porque nos amávamos, nos queríamos bem, e a percepção e aceitação de que nossa história havia acabado era tão dura e pouco verossímil quanto o término em si. E uma das maiores dores era a saudade do nosso futuro, que não existia mais daquele jeito como sonháramos tanto.

E demorou muito tempo para que soubéssemos quem éramos, um sem o outro. Que soubéssemos como é que se faz para viver sem as pequenas coisinhas legais do nosso dia-a-dia, sem o colo do outro, como é que faz para dormir sozinho, para ser sem o outro.

Quando eu saí de casa, nos ligávamos todos os dias. Eu queria saber se ele tinha dormido bem, se tinha se alimentado, se estava sendo cuidado pelos amigos, como é que ele estava. Ele me ligava para saber se eu tinha comido bem, se estava ligando para os amigos, se tinha dormido bem, como é que eu estava. Ligava para perguntar coisas dele, eu ligava para saber coisas de mim. Ficamos mais de um mês assim, até que percebemos que para nos separarmos de verdade precisávamos ficar um tempo separados de verdade, sem nos falar, sem nos ver.

Ele começou outras histórias, eu vivi uma série de historinhas. Até que um dia andava na rua e o vi de mãos dadas com outra mulher. Estávamos separados, separadíssimos, mas eu não consegui deixar de chorar e sofrer um pouco. O enterro da nossa história aconteceu muitas vezes, sucessivamente. Ali foi um deles. Depois fui me acostumando. Depois nos encontramos, seis meses depois, e quem lê o blog com frequência já sabe como foi belo e importante o nosso reencontro.

Ontem ele me ligou, contando que havia lido o post continua valendo. E que tinha ficado muito feliz por mim. “Você não ficou triste, enciumado? ” eu perguntei. “Não.” ele disse. Gosto muito de você, eu quero muito que você seja feliz. E eu me emocionei e contei para ele que andava insegura, e ele falou que eu ligasse, chamasse, gritasse, quando precisasse de ajuda ou simplesmente de um amigo para conversar. E eu ri, e ele falou: “você acha estranho isso , né? ” um pouco, eu falei, mas sim, falei, somos amigos. Somos fundamentais um para o outro, e nosso amor continua ali, transformado, mas presente. Estamos ali, atentos um pelo outro, porque nos gostamos muito. è estranho, mas a vida é inteira estranha.

A pessoa com quem estou agora diz que se orgulha muito da maneira como meu casamento terminou. Que é importante terminarmos bem, finalizarmos bem as histórias das nossas vidas. Nem sempre isso é possível, como já estou adulta e velha, tenho muitos amigos que se separaram, já estão na segunda ou terceira história, e guardam mágoas e desencantos profundos das histórias que terminaram. Nem sempre é possível, terminar bem, mas é importante tentar, por carinho e respeito ao outro, que foi e de alguma maneira sempre continua sendo tão importante para nós.

E às vezes , nessa nossa idade adulta e velha, o outro com quem a gente está também tem suas histórias para terminar, finalizar, transformar. É muito difícil, lidar com as histórias dos outros. Às vezes há filhos, disputas judiciais, mágoas, mal entendidos. Estar e abraçar uma nova pessoa na nossa vida é também abraçar e topar viver junto as suas histórias passadas e às vezes ainda presentes. Não adianta querer que elas sumam, até porque elas fazem parte do nosso amor, dessa pessoa com a qual de repente a gente quer fazer uma história nova. Acho que isso é uma espécie de maturidade, e generosidade, e também um ato de amor. Reconhecer que cada um tem uma história, que cada história tem seu tempo, e que o tempo de finalização e transformação das histórias é muito difícil, um tempo que requer tempo.

Eu espero. E estou junto. Porque parece que sim.