Com toda a minha complicadeza eu sou uma pessoa simples.

Aprendi a não mentir, principalmente para mim mesma, e ser fiel aos meus desejos. E meus desejos são cada vez mais simples:

quero morar onde moro e quero os alunos que tenho. Quero ler bons livros, quero ouvir música, quero dançar cada vez mais e melhor, quero ver bons filmes, que me façam rir, sentir medinho, torcer e chorar.

Quero cozinhar para as pessoas que amo, receber meus amigos em casa, quero fazer amor, quero ter amores.

Quero dormir quando tenho sono, comer quando tenho fome e poder ficar quieta quando não tenho vontade de falar.

Quero ligar e contar tudo do meu dia, nos mínimos detalhes, quando tenho vontade de ligar e contar tudo do meu dia, nos mínimos detalhes.

Quero o meu corpo cada vez mais alongado e forte, quero sentir-me inteira.

Quero ter tranquilidade e leveza na vida, e não me angustiar com o que não tem solução.

Quero andar pelas cidades, observar as pessoas, as janelas das casas das pessoas, as roupas das pessoas e ouvir suas conversas. Quero toda a minha elegância. Quero me arrumar muito, quero ver,  ser vista. Quero ter a coragem de pagar para ver, e quero de graça também.
Quero ver meus alunos crescendo.

Quero que as pessoas que eu amo saibam disso, mesmo que às vezes eu suma e fique muito tempo sem aparecer nem falar de mim ou saber delas, quero que as pessoas que eu amo saibam disso e sintam uma segurança no mundo por causa disso.

Quero falar sozinha na rua e sorrir sem nem perceber.

Quero que me descubram e explorem cada parte do meu corpo, com fascínio, humor, prazer e adoração.

Quero viver cada vez mais simples, conversar e estar com pessoas inteligentes e livres, adorar a chuva e o sol, a noite e o dia, o vento e a calmaria. Quero sentir os cheiros do mundo, da chuva, da grama molhada, do pão quente, do café, da comida no forno, do suor do corpo amado. Quero fechar os olhos e respirar fundo. Tomar café da manhã e demorar-me duas horas no processo de começar o dia. Quero sentir o gosto da comida que como, e desmanchar-me na bebida que bebo. Quero criar e ser criada, imaginar e ser imagnada, sonhar muito, e ser sonhada. Viver muito, junto e só, múltipla e inteira.

Quero poder viver bem junto ao meu tempo, e ser dona das coisas, mesmo que elas não caibam no dia, quero que minha vida me pertença e que ninguém tenha nada com isso, a não ser que eu tenha aberto a porta, para a pessoa entrar.

Poucas coisas, cada vez menos coisas, e cada vez melhores. Quero ser simples, quero ser o que sou, hoje, agora. Quero. Quero muito.

  e querer liberta

Em tempo:

o Alex Castro terminou de postar um texto que escreveu sobre racismo e ser da raça certa. Ele diz que escreveu junto comigo, mas na verdade eu colaborei, palpitei, contribuí com alguma coisa mas o texto é dele. Trata-se de um dos melhores textos não acadêmicos sobre racismo e preconceito que eu já li. Como o blog do Alex é muito lido, os comentários proliferaram, e são um capítulo à parte, alguns estarrecedores, que simplesmente ilustram à perfeição o que é dito no texto sobre racismo e preconceito. A leitura é obrigatória, vá, leia e reflita. O texto foi publicado aos poucos, deixo todos os links aqui. Imperdível para quem acha que vale a pena o tempo gasto com reflexão sobre o mundo.

Leia todos os posts dessa série:

Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório

p.s.: o Alex gosta de falar que ele é eu, mas na verdade eu é que sou o Alex.