parte 1:a hora e a vez do encontro.

E ontem me deu uma insônia forte, brava, daquelas que você pensa que nunca mais na vida irá dormir de novo. E não aguentando mais a companhia dos meus pensamentos no escuro, nem aquela sensação horrível de corpo e mente desobedientes e em ritmos acelerados na hora errada, levantei e pronto. E fui ler e decidi que não podia ler nada de trabalho, porque aí que não dormia mesmo.

Levantada, fui ao escritório flertar com meus livros, estariam eles ali essa noite? Sim porque às vezes meus livros me traem e fecham-se para mim, como que somem; nenhum me quer, nenhum é suficiente, nenhum é o que eu queria e precisava que fosse naquela hora exata. A gente está louca para ler, e não encontra livro algum.

Os perfeitos, aqueles que parecem nossos pares ideais, que nos traduzem e endendem, às vezes se escondem ou foram todos tomados por outras e outros, emprestados a alguém, já têm dono. Percorro minhas estantes….Nada. Talvez algum livro solitário e sem leitores sonhe comigo assim como sonho com ele, solitários à espera um do outro, ele em alguma prateleira obscura de uma livraria da cidade, eu aqui, no meu canto… mas nem sei da existência desse e acabo amaldiçoando os que tenho ali comigo. Meus olhos examinam as lomabadas… russos, não, Machado, nem pensar, aquele já li, o outro dá preguiça….
Tento, pego um… devolvo. É daqueles livros bons, simpáticos, legais até, mas cuja química não rola… e dizemos: “desculpa… olha, não é você, sou eu… de volta para a estante, um dia a gente se vê.”

Difícil, o encontro com um livro, no meio da noite, sem preparo nem planejamento.

Pensava sobre tudo isso, o sono cada vez mais longe, quando um livro do Guimarães piscou para mim da estante. Será? Não é muito cabeça? Hum… Olho de novo. O tal virou de ladinho se oferecendo todo, deu mais uma piscada, aguçou minhas memórias, lembrei-me dos prazeres já vividos ali e não teve jeito, escolhi-o, e disse: ok, és meu e sou tua, por essa noite.

Peguei para ler Sagarana e, afoita e impaciente, fui logo para o último conto do livro, para ver se dormia, sem que a ansiedade de estar ainda no começo, toda uma relação por construir, me acordasse de vez e irremediavelmente. Comecei a ler A hora e a vez de Augusto Matraga.

No começo, em meio ao sono e mau humor de uma noite não dormida, não entendia nada, demora, para a gente pegar o jeito do Guimarães. É quase como um novo sotaque, uma nova música de uma afinação diferente, demora para pegar, mas depois flui, e fica tudo fácil, e lindo. Para mim demorou umas duas páginas, mas a piscadela havia sido tão irresistível que dei-lhe a chance do jantar depois do drink, apesar dos pequenos desencontros nas preliminares.

E logo me entreguei. A certa altura, tão afoita e desinibida, até levantei do sofá e fui buscar um lápis e marquei-lhe as páginas, sublinhei palavras, acompanhei o o conto inteiro, até que, madrugada, chegamos juntos ao fim.

Recuperei o ar e depois desse encontro perfeito, pude até dormir, satisfeita.

parte 2: as lembranças depois do sono.

Como escreve bem, o Rosa. Já que não sou ciumenta, nem possessiva, bem humorada depois de uma noite bem lida, partilho com vocês as partes sublinhadas. ;)

começando pelo provérbio capiau maravilhoso, que abre o conto:
“Sapo não pula por boniteza,
mas porém por percisão.”

isso serve para as palavras dele também, que não estão ali por boniteza, mas por percisão. E como é preciso, o Rosa.

a certa altura, Nhô Augusto e sua vida inteira caem, e o anúncio da sua tragédia é narrado assim, olha que preciso:

“Quando chega o dia da casa cair - que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, - o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é só a coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto não: estava deitado na cama - o pior lugar que há para se receber uma surpresa má. “

e, em outro pedaço, para falar do que é literatura, o que tanto teórico tenta dizer, ele vai lá e alcança com perfeição:

“E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor. “

E Nhô Augusto fica triste, profundamente triste, acho que deprimido, se pudéssemos falar assim, fica como já fiquei tantas vezes, e me vi ali:

“Mas daí em seguida, ele não guardou mais poder para espantar a tristeza. E, com a tristeza, uma vontade doente de fazer coisas mal feitas, uma vontade sem calor no corpo, só pensada: como que, se bebesse e cigarrasse, e ficasse sem trabalhar nem rezar, haveria de recuperar sua força de homem e seu acerto de outro tempo, junto com a pressa das coisas, como os outros sabiam viver. “

e umas páginas depois Nhô Augusto levanta, como já me levantei, nos levantamos, junto com a pressa das coisas; depois de um tempo sem poder para espantar a tristeza, uma vez e quantas precisar levantamos, sem saber porque antes estávamos do outro jeito:

“E, uma vez de manhã, Nhô Augusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia inteiro deitado, e achando, ao mesmo tempo, muito bom se levantar. Então, depois do café, saiu para a horta cheirosa, cheia de passarinhos e de verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava? ! … Não era pecado… devia ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente, que ajudava a gente a se alegrar . . . “

e assim minha noite preencheu-se inteira, e eu inteira fiquei preenchida também. Porque aquela era A hora e a vez do Augusto Matraga, porque cada um tem sua hora, e eu estava lá, acordada, e vi tudo. E tudo ficou em ordem.