Estou lendo com a oitava série Bartleby, O escrivão, de Melville.

É sempre difícil escolher o que ler com os alunos, sempre uma aposta. Uns livros dão certo, outros são um fracasso total. Às vezes, uma turma ama Capitães da Areia, e outra detesta. Não sei bem ainda o que faz um livro funcionar ou não, e sempre penso e repenso as leituras que faço com meus alunos.

Uma síntese do que eu penso sobre isso pode ser lida aqui, uma espécie de manifesto sobre os direitos do aluno leitor, com sete reivindicações. Se há interesse pelo assunto, recomendo sem nenhuma modéstia a leitura:


1)O aluno não precisa gostar do livro lido.
Inclusive, é livre para odiá-lo.

2)Ao aluno deve ser oferecido sempre o que há de melhor na literatura universal, passando por todos os gêneros.
3)A literatura não é objeto santificado, sagrado nem de culto máximo.
4)Livros inteligentes devem ser tratados com inteligência.
5)Se o aluno não lê nada, mas nada mesmo, é porque, provavelmente, não sabe ler.
6)Os alunos têm direito a excelentes bibliotecas e a livros baratos.
7)Os alunos têm direito a professores ultra bem remunerados e com tempo para dedicarem-se a eles.

De qualquer maneira, com a oitava série, como já falei, decidi ler Bartleby. O grande critério é, afinal, livros que eu amo, que me colocam fora do meu lugar usual, e que eu acho, por alguma razão às vezes bem misteriosa, que os alunos vão curtir.

A história de Bartleby é bem simples e incrível:

um escrivão um dia é contratado para trabalhar numa firma de advocacia como copista, Bartleby assim é descrito pelo narrador:

“Ainda vejo sua figura: levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado! Era Bartleby. “

(…)

No início Bartleby cumpre as expectativas de seu chefe, aplica-se com afinco no trabalho, embora haja já um tom de tensão: trabalha incansavelmente, mas sem alegria.

” No início Bartleby escrevia muito. Como se estivesse faminto por ter algo para copiar, parecia se empanturrar com meus documentos. Não havia pausa para digestão. Trabalhava dia e noite, copiando à luz natural e à luz de velas. Eu teria ficado empolgado com sua dedicação se ele trabalhasse com alegria. Mas escrevia em silêncio, com apatia, mecanicamente.”

E não deixa de ser irônico um chefe que queira de seus trabalhadores alegria e empolgação.

Então eu vou explicando para meus alunos aquilo que aprendi com meus professores: que na literatura, aquela boa para valer, não importa tanto a historinha, mas sim o  como a historinha é contada, e que devemos prestar atenção sempre nas palavras escolhidas, na maneira como elas se organizam na construção do texto.

É maravilhosa a descrição de Bartleby, primeiro como aspirante a um trabalho ( e há poucas situações mais terríveis como a da entrevista para o emprego)
levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado!

As duas qualidades que poderiam ser positivas na sua caracterização não se sustentam pois vêm precedidas de advérbios que lhe tiram toda força e dignidade. Levemente arrumado é pior que desarrumado, é como o arrumadinho, ou a moça simpática que na verdade é feia e pronto. Lamentavelmente respeitável então chega a ser lindo, o advérbio reitira toda a respeitabilidade de alguém que a sustenta assim, de maneira lamentável. E, por fim, extremamente desamparado, e esse parece ser o funcinário ideal.

E o novo funcionário começa a trabalhar, num escritório érido, atrás de um biombo, com a vista para um muro de tijolos. O  ofício assemelha-se a uma refeição onde as letras são engolidas compulsivamente, sem pausa ou espaço para digestão. Não há pausa para a fruição ou apreciação daquilo que é ingerido,  o próprio ofício ( copista de documentos burocráticos) fecha as portas para que uma marca pessoal qualquer fique ali impressa, ou mesmo para que aquele que copia possa de fato alimentar-se do conteúdo copiado. A cópia não permite a digestão, já que a digestão significa  apropriação e  transformação daquilo que foi ingerido. Assim, Bartleby empaturra-se de letras copiadas, sem significado ou conteúdo, e trabalha vorazmente, suspenso no nada.

Então eu comecei a conversar com meus alunos sobre esse negócio de trabalho. E há trabalhos que permitem a digestão, e há aqueles que não a permitem. Eu contei para eles que ficava muito contente porque meu trabalho, com eles, era cheio de conteúdo e de significado e volta e meia eu parava para digerir e pensar e criar,e suava e suo muito para deixar minha marca naquilo que faço.

E aí eles começaram a conversar sobre escola, e eles próprios se identificaram com Bartleby. Porque eles trabalham muito na escola, quase nunca em silêncio, é verdade, mas muitas vezes com apatia e mecanicamente. E eu falei para eles que justamente o que dava sentido ao meu estar lá era tentar desmontar um pouco esse sistema, que a escola, como qualquer instituição, acaba funcionando de maneira a retirar das coisas vividas seu sentido, e que a literatura e a  escrita deviam ser vividas como vidas inteiras e significativas, e não como uma tarefa a ser feita de maneira apática e mecânica.

E mais: que havia por aí muita gente vivendo com apatia e mecanicamente, sem ver sentidoem coisa alguma, e que o mundo do trabalho, das obrigações, das aparências acaba criando isso, que é preciso muita coragem para dar sempre, todos os dias, um significado à existência, e principalmente a coragem primeira de ser fiel aos próprios desejos e sonhos.

e um aluno perguntou:

- mas quem não faz o que quer? Todo mundo faz o que quer!

E vários responderam:

-  não… minha mãe não faz o que quer. Meu pai sente que abandonou seus sonhos… Minha madrasta é infeliz… Minha irmã não sabe o que quer…

E então voltamos à Bartleby, nosso personagem,  procurando empanturrar-se vorazmente com letras sem interesse ou conteúdo. Um copista, como são tantos na vida. “Lamentavelmente respeitável, extremamente desesperado.”

Logo chega o  momento em que o advogado, patrão de Bartleby e narrador da história ( o que confere à toda narrativa toda uma ambiguidade, trata-se daqueles narradores de quem se deve desconfiar profundamente, de quem não compraríamos um carro usado, por exemplo) pede que Bartleby confira com ele uma cópia que fez.

“É claro que uma parte indispensável do trabalho do escrivão é verificar se sua cópia está correta, palavra por palavra. Quando há dois ou mais escrivães num escritório, eles se ajudam nessa verificação, um lendo a cópia e o outro, o original. É uma tarefa muito cansativa, monótona e desanimadora. Posso compreender que essa seria uma tarefa intolerável para pessoas mais vivazes. ”

Então o patrão chama seu empregado para cumprir a tarefa, e ouve, atônito, a resposta:

- acho melhor não. ( em inglês; I would prefer not to. A tradução proposta na edição que estamos usando não é de todo feliz, pois I would prefer not to carrega uma estranheza, um formalismo não usual que na fórmula acho melhor não , se perde) 

O maravilhoso é que a resposta de Bartleby desconcerta totalmente o advogado, que perde as palavras e a ação, atônito. Novamente, alguns dias depois, pede-se que Bartleby confira as cópias, e novamente o ecrivão recusa-se. O advogado procura entender a recsa de Bartleby, mas não há explicações, a não ser o  I would prefer not to.

E é bem interessante isso. E é legal dar aula de literatura para adolescentes porque a gente pode falar e conversar sobre o óbvio e o simples sem culpa e sem precisar travestir a conversa com grandes conceitos e citações.

Então a gente começou a conversar sobre esse negócio de obrigações, e as coisas que cada um de nós gostaria de simplesmente parar de fazer. Sem explicações, interpretações, justificativas ou análises simbólicas. Uma menina falou que gostaria de parar de falar com a família, outra, que gostaria de parar de falar e de ouvir. Um falou que gostaria de parar de ser gentil com quem não gosta. Um gostaria de parar de ir para a escola, outra falou que gostaria de parar de assistir as aulas das matérias que não gosta. Outro gostaria de parar de assistir todas as aulas, gostaria de ir para a escola e ficar só conversando. Outra gostaria de parar de ser orgulhosa, outra gostaria de parar de ser preguiçosa. E eles fizeram uma redação, o tema era um personagem criado por eles que um dia, simplesmente, pára de fazer algo que lhe é esperado.

A história progride assim, num crescendo, Bartleby cada vez mais achando melhor não .

( continua amanhã)